Na maioria dos casos a nossa relação com os outros é nada mais que uma relação connosco mesmos mas por procuração e filtrada por um orgão de interpretação menos previsível. Num extremo perdemos a lucidez e a razão apenas quando descontraímos a predictabilidade da nossa percepção.
O que isto quer dizer é que a nossa percepção de nós mesmos é previsível: o Ego faz tudo o que pode para se proteger e para alimentar a imagem que quer ter de si mesmo. Desta forma, tudo o que pensamos acerca de nós mesmos é-nos inteiramente previsível, para um narcisista todos os pensamentos e interpretações serão inteiramente focadas no seu próprio sentido de ser, mas para todos nós a interpretação do mundo à nossa volta é constante e previsivelmente contaminado por esta necessidade que o Ego sente de se sustentar como se fosse uma entidade real e autónoma. Assim, a nossa relação com as outras pessoas é um jogo constante de tentarmos obter a aprovação deles, de lhes obter a admiração e empatia. Por muito velada que seja esta necessidade, é fácil apercebermo-nos que a nossa relação com os outros está sempre subjugada a esta necessidade que o ego tem de se validar como entidade individual.A libertação ou iluminação remove este filtro tão previsível, ao nos apercebermos da nossa natureza verdadeira, o Ego dissolve-se e com ele dissolve-se a nossa tendência para ver tudo em termos duais. As coisas passam a ser como são e como tal que as vemos, deixamos de ver o mundo em relação ao nosso conceito de nós mesmos. Neste estado, a nossa visão do mundo deixa de ser filtrada seja pelo que for, deixa de haver uma distinção entre nós e os outros. A nossa interpretação do que são "os outros" perde a predictabilidade. Para quem nos vê neste estado, parece que perdemos a lucidez. Na ausência de mente dual e de classificações, parecemos ter perdido a razão.E é neste estado de mente que atingimos a verdadeira compaixão: só temos verdadeira compaixão quando a nossa mente deixa de ver os outros como entes de existência própria, separada da nossa.
No Budismo fala-se com frequência de sofrimento (dukha) e de como todo o processo de libertação põe fim ao sofrimento. Claro que sermos capazes de apreender a nossa verdadeira natureza claramente e a um nível intuitivo é o passo determinante para a nossa libertação, mas até lá a questão mantém-se: o que gera o sofrimento?
De acordo com as Sutras, o sofrimento tem quatro causas principais:
Estas causas parecem tão simples que a sua compreensão é directa. O leitor pode sem grande esforço avaliar-lhes a veracidade. As duas primeiras têm a ver com as nossas relações com as pessoas à nossa volta e as duas últimas com o nosso sentido de possessão e de aquisição. Assim, sofremos quando não nos pudemos dar com quem queremos e sofremos quando não possuímos o que queremos.Isto poderia levar-nos a pensar que uma vida ascética seria a via mais segura para a libertação, mas a verdade é que, independentemente da vida que se leve, basta que uma destas causas apareça, o sofrimento estar-lhe-á perto no encalço.
Só ao apreendermos a nossa verdadeira natureza é que realizamos a verdade de que não há ninguém de que estejamos longe nem perto, e muito menos alguém de que se goste ou desgoste, a mente dual que classifica tudo em termos de opostos, cessa e com ela cessa o nosso processo constante de classificar tudo à nossa volta. Cessa assim o sofrimento.
Claro que este é um tópico que tem a tendência de se tornar contencioso e cujo debate parece não ter fim. mas o Buda contou uma história que ilustra as principais diferenças entre o Budismo e o Cristianismo, Judaísmo e Islão: imagine-se um soldado numa batalha medieval. A meio da batalha uma flecha atinge-o na perna e o pobre soldado cai no chão contorcido com dores. Pensemos agora no que é mais importante para o soldado: extrair a flecha e começar a curar a ferida, ou continuar com a dor e flecha cravada na perna, enquanto ele debate a origem da flecha, tenta descobrir quem a fez, quem a disparou, o arco que flecha fez no ar, etc.? Claro que dada a agonia de ter sido atingido pela flecha o soldado estará muitíssimo mais interessado em a tirar e em se curar do que em se envolver em debates inúteis sobre a natureza da flecha e do seu infortúnio.
De forma similar, o Budismo está muito mais interessado em endereçar e eliminar o nosso sofrimento do quem debater a nossa condição. A existência de um Deus é um assunto periférico no Budismo, questões sobre a origem e o fim do Mundo são postas no âmbito das Ciências em vez do âmbito religioso e a moralidade é algo que cada um de nós desenvolve como humanos e não algo que é imposto por deuses ou pelos intérpretes do deuses.
Assim, há uma corrente de debate no Ocidente que diz que o Budismo não é uma religião porque não tem a existência de um Deus ou Deuses como fulcro da sua teologia. Se o Budismo é ou não uma religião é periférico à nossa prática: o que estamos interessados é em melhorar a nossa vida e o mundo à nossa volta, queremos tirar rapidamente a flecha que nos atormenta e sabemos que só nós é que o pudemos fazer, que num ente se vai materializar para nos extrair a flecha.
No fim, o que nos distingue das religiões Ocidentais é um ênfase muito maior na responsabilidade individual e no pragmatismo.
O Budismo ensina-nos que a realidade se caracteriza por três qualidades básicas:
A prática do Chan tem como fim libertar-nos do sofrimento e um dos primeiros passos nessa via é precisamente sermos capazes de aceitar e compreender estas três características da realidade.
A prática formal da meditação vai tendo um efeito gradual na nossa mente. Mesmo que não se pratique mais nenhuma forma de meditação que a que aqui temos apresentamos, é certo que se observarão resultados, a mente acalma e começamos a desenvolver um sentido mais apurado de introspecção. O processo de ficar só a observar a mente e o mundo à nossa volta sem se tentar interferir num ou no outro é o que se chama em Chan "Iluminação Silenciosa" (shikantaza em Japonês e zhiguan da zuo em Mandarim).
Á medida que praticamos vamos observando os seguintes níveis na nossa meditação:
Cada um destes níveis tem as suas dificuldades e gera as suas dúvidas e convém ter-se um sacerdote ou monge que nos guie através deste processo.
O Budismo põe mais êmfase no ensinamento e conteúdo da mensagem do que no mensageiro ou no formato da comunicação. Assim, o Budismo considera que os ensinamentos contidos num texto devem ser avaliados em relação aos seus méritos próprios e não em relação a quem os apresenta, às suas origens ou mesmo ao autor.
O Budismo estabelece assim as "quatro confianças" (catuh pratirasana) para avaliar o valor de qualquer ensinamento:
Nos posts anteriores sobre conversão ao Budismo, ficou por endereçar uma questão fundamental: qual é o processo de conversão?
A "conversão" é um acto individual, no sentido lato, uma pessoa recita as tomada de refúgio nas Três Jóias, ou seja uma pessoa põe as mãos, faz uma vénia e recita:
Faz-se novamente uma vénia e o processo está concluído.
No sentido estrito, pode-se requerer uma pequena cerimónia de um monge ou sacerdote. A nossa Ordem dá refúgio a todos que o peçam, contacte-nos se estiver interessado em se refugiar e em explorar o Budismo formalmente.
Na óptica do Chan, a Meditação não é só para praticar sentado, formalmente em períodos bem regimentados mas também continuamente ao longo do dia. Nesta fase inicial da prática, o aspecto mais importante da meditação é a capacidade de prestar atenção e é isso que devemos praticar ao longo do dia.
Esta prática é mais fácil quando se faz algo monótono como lavar a roupa, passar a ferro, cozinhar, lavar a louça, etc. Esta prática resume-se a prestar atenção ao que se está a fazer: presta-se atenção ao ferro a tirar as rugas da roupa, presta-se atenção aos movimentos que é preciso fazer para passar a ferro, presta-se atenção aos pensamentos que aparecem e desaparecem, presta-se atenção ao aborrecimento que começamos a sentir, e por aí fora.
Também é possível praticar esta forma de meditação quando nos irritamos: prestamos atenção ao que sentimos e à maneira como a nossa mente gera o sentimento, notamos o sentimento a desaparecer.
No fundo, o que é importante é habituarmo-nos a prestar atenção ao que se passa ao nosso redor e na nossa mente ao longo do dia.
Pode-se começar por praticar com uma tarefa monótona e depois estender a prática a todos os momentos que se puder durante o dia.
Isto constitui uma forma de "meditação activa" que dá resultados muito rapidamente: ficamos mais calmos e mais presentes em cada momento e começamos a desenvolver um nível de atenção que nos permitirá praticar outras formas mais avançadas de meditação.
No seguimento do nosso post anterior, vamos agora debruçarmo-nos sobre a prática formal da meditação e que corresponde à meditação sentada que normalmente associamos com o termo "meditação."
A "mecânica" dessa prática é a seguinte:
Ter-sè-à que ter imensa paciência pois de início é necessário que se consiga pacificar a mente, e esta é a meditação preliminar para tal fim. Decerto que vai ficar aborrecido por estar sentado tanto tempo, tão desconfortável sem fazer nada, e também por o tempo passar e estar sempre a meditar neste processo.
No próximo post falaremos mais sobre este processo.
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