Segunda-feira, 07.05.12

Passaremos a ter um novo colaborador neste blog, que - esperamos - muito ajudará a revitalizá-lo. Kahuna acaba de colocar um novo post sobre o que é o Chan, contamos com uma colaboração frequente. 

Benvindo ao Zen Portugal!



Zen Portugal às 22:43 | link do post | comentar

Viver o CHAN, é viver o dia-a-dia, é viver o momento presente, é viver.
O CHAN não tem regras nem dogmas, não se aprende pelo mensageiro mas sim pela mensagem. “Se encontrar o buda na estrada, mate-o.”
Viver o CHAN, é prestar atenção a tudo o que fazemos no nosso dia-a-dia de forma plena e consciente sem quaisquer automatismos, é entregarmo-nos de corpo e alma a tudo o queemos e a tudo o que somos.
Na era da informação e da multitarefa, o CHAN remete-nos para o contrário, para o processamento simples de uma tarefa de cada vez com uma atenção plena, para vivenciar avida um passo de cada vez, saboreando o nosso bem mais precioso, a Via.
Ao passado não podemos alterar uma vírgula, o futuro não sabemos o que é e nunca lá chegaremos portanto a nossa existência deve-se centrar no presente, é no presente que nosrealizamos de forma completa e plena.
Em cada actividade da nossa vida há uma oportunidade para viver o Chan. Nas palavras de Núvem Vazia: "As nossas actividades diárias têm lugar na Via. Haverá um lugar onde não se pratique a Via? Um salão de meditação não deve ser necessário para tal."
É através desta simplicidade de viver que encontramos a paz, a alegria e nos libertamos dos desejos que nos levam a dukkha.
Não estamos de forma alguma a fugir dos problemas ou da vida, pelo contrário, estamos a viver cada momento, preocupando-nos com aquilo que de facto é mais importante. Aquilo que não depende de nós, não vale a nossa preocupação. Como aquela celebre frase que diz “ se um problema tem solução não vale a pena nos preocuparmos, e se não tiver solução também não.”
É esta simplicidade e paz que devemos levar para a meditação, para nos encontrarmos com o nosso centro e partir dai para o encontro com o outro, é a descoberta do eu liberto do nosso ego. É a nossa forma mais pura e simples de ser e estar. É a forma de viver o momento, de nos sentirmos vivos em comunhão com o todo o universo.
É esta a via do CHAN, a via da simplicidade e do momento.
Ser budista CHAN é apenas isto:SER.


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Luís Biscaia às 21:50 | link do post | comentar

Segunda-feira, 10.05.10

Na maioria dos casos a nossa relação com os outros é nada mais que uma relação connosco mesmos mas por procuração e filtrada por um orgão de interpretação menos previsível. Num extremo perdemos a lucidez e a razão apenas quando descontraímos a predictabilidade da nossa percepção.

 

O que isto quer dizer é que a nossa percepção de nós mesmos é previsível: o Ego faz tudo o que pode para se proteger e para alimentar a imagem que quer ter de si mesmo. Desta forma, tudo o que pensamos acerca de nós mesmos é-nos inteiramente previsível, para um narcisista todos os pensamentos e interpretações serão inteiramente focadas no seu próprio sentido de ser, mas para todos nós a interpretação do mundo à nossa volta é constante e previsivelmente contaminado por esta necessidade que o Ego sente de se sustentar como se fosse uma entidade real e autónoma. Assim, a nossa relação com as outras pessoas é um jogo constante de tentarmos obter a aprovação deles, de lhes obter a admiração e empatia. Por muito velada que seja esta necessidade, é fácil apercebermo-nos que a nossa relação com os outros está sempre subjugada a esta necessidade que o ego tem de se validar como entidade individual.A libertação ou iluminação remove este filtro tão previsível, ao nos apercebermos da nossa natureza verdadeira, o Ego dissolve-se e com ele dissolve-se a nossa tendência para ver tudo em termos duais. As coisas passam a ser como são e como tal que as vemos, deixamos de ver o mundo em relação ao nosso conceito de nós mesmos. Neste estado, a nossa visão do mundo deixa de ser filtrada seja pelo que for, deixa de haver uma distinção entre nós e os outros. A nossa interpretação do que são "os outros" perde a predictabilidade. Para quem nos vê neste estado, parece que perdemos a lucidez. Na ausência de mente dual e de classificações, parecemos ter perdido a razão.E é neste estado de mente que atingimos a verdadeira compaixão: só temos verdadeira compaixão quando a nossa mente deixa de ver os outros como entes de existência própria, separada da nossa.



Zen Portugal às 02:13 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 17.03.10

No Budismo fala-se com frequência de sofrimento (dukha) e de como todo o processo de libertação põe fim ao sofrimento. Claro que sermos capazes de apreender a nossa verdadeira natureza claramente e a um nível intuitivo é o passo determinante para a nossa libertação, mas até lá a questão mantém-se: o que gera o sofrimento?
De acordo com as Sutras, o sofrimento tem quatro causas principais:

  1. Estar separado ou longe de quem se gosta
  2. Estar com quem detesta
  3. Querer o que não se tem
  4. Ter o que não se quer

Estas causas parecem tão simples que a sua compreensão é directa. O leitor pode sem grande esforço avaliar-lhes a veracidade. As duas primeiras têm a ver com as nossas relações com as pessoas à nossa volta e as duas últimas com o nosso sentido de possessão e de aquisição. Assim, sofremos quando não nos pudemos dar com quem queremos e sofremos quando não possuímos o que queremos.Isto poderia levar-nos a pensar que uma vida ascética seria a via mais segura para a libertação, mas a verdade é que, independentemente da vida que se leve, basta que uma destas causas apareça, o sofrimento estar-lhe-á perto no encalço.
Só ao apreendermos a nossa verdadeira natureza é que realizamos a verdade de que não há ninguém de que estejamos longe nem perto, e muito menos alguém de que se goste ou desgoste, a mente dual que classifica tudo em termos de opostos, cessa e com ela cessa o nosso processo constante de classificar tudo à nossa volta. Cessa assim o sofrimento.



Zen Portugal às 16:41 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Domingo, 14.03.10



Zen Portugal às 23:24 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.01.10

Claro que este é um tópico que tem a tendência de se tornar contencioso e cujo debate parece não ter fim. mas o Buda contou uma história que ilustra as principais diferenças entre o Budismo e o Cristianismo, Judaísmo e Islão: imagine-se um soldado numa batalha medieval.  A meio da batalha uma flecha atinge-o na perna e o pobre soldado cai no chão contorcido com dores. Pensemos agora no que é mais importante para o soldado: extrair a flecha e começar a curar a ferida, ou continuar com a dor e flecha cravada na perna, enquanto ele debate a origem da flecha, tenta descobrir quem a fez, quem a disparou, o arco que flecha fez no ar, etc.? Claro que dada a agonia de ter sido atingido pela flecha o soldado estará muitíssimo mais interessado em a tirar e em se curar do que em se envolver em debates inúteis sobre a natureza da flecha e do seu infortúnio.
De forma similar, o Budismo está muito mais interessado em endereçar e eliminar o nosso sofrimento do quem debater a nossa condição. A existência de um Deus é um assunto periférico no Budismo, questões sobre a origem e o fim do Mundo são postas no âmbito das Ciências em vez do âmbito religioso e a moralidade é algo que cada um de nós desenvolve como humanos e não algo que é imposto por deuses ou pelos intérpretes do deuses.
Assim, há uma corrente de debate no Ocidente que diz que o Budismo não é uma religião porque não tem a existência de um Deus ou Deuses como fulcro da sua teologia. Se o Budismo é ou não uma religião é periférico à nossa prática: o que estamos interessados é em melhorar a nossa vida e o mundo à nossa volta, queremos tirar rapidamente a flecha que nos atormenta e sabemos que só nós é que o pudemos fazer, que num ente se vai materializar para nos extrair a flecha.
No fim, o que nos distingue das religiões Ocidentais é um ênfase muito maior na responsabilidade individual e no pragmatismo.



Zen Portugal às 17:38 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 21.01.10

O Budismo ensina-nos que a realidade se caracteriza por três qualidades básicas:

  • Impermanência - esta característica ou qualidade é evidente: nada dura para sempre, sejam bens materiais ou espirituais, estados mentais, o mundo à nossa volta, nada é permanente. O que nós somos hoje há-de mudar, da mesma forma que mudámos desde que éramos pequenos e haveremos de continuar a mudar até morrer. Até a mais alta montanha se desgasta até nada restar dela. Uma grande ilusão a que nos prendemos é que há coisas que não mudam... retórica àparte, tudo muda e nada é permanente.
  • Sofrimento - a nossa naturêza é inescapável ao sofrimento, no nosso desespêro de tornar algo constante, geramos sofrimento. "Sofrimento" não deve ser entendido só como dôr física ou grande depressão ou desespêro mas também como insatisfação. Na realidade, se o termo não fosse tão restrito, "insatisfação" seria a maneira de descrever o sofrimento que normalmente mais nos atormenta. É a insatisfação de nunca termos nada "perfeito", de estarmos sempre com um pequeno desconforto qualquer, de não nos considerarmos à altura das nossas ilusões, na realidade, a nossa vida é quase uma sucessão ininterrupta de pequenas insatisfações entremeadas de maior sofrimento. De um ponto de vista Budista, esta insatisfação e sofrimento advêm da nossa tendência de nos apegarmos a ideias e conceitos incorrectos ou de tentarmos constantemente justificar o nosso Ego. Sofremos porque vemos um mundo à nossa volta que não segue o papel que lhe destinámos e sofremos porque não realizamos as duas outras características da existência: não aceitamos que tudo passa e nada é permanente e queremos com toda a força que algo tenha naturêza própria, queremos que o ditame de Descartes seja verdade: queremos existir só por ventura de pensarmos, mas temos sempre resquícios de dúvida e são estas minúsculas dúvidas que entram em conflicto com a nossa necessidade de certêza e criam sofrimento.
  • Vazio - no contexto do Budismo, o "vazio" não deve ser entendido como "vácuo", como ausência de ser, mas sim como ausência de naturêza própria independente. O que quero dizer com isto é que nada tem naturêza própria, que tudo depende do que lhe está à volta do que aconteceu anteriormente. o vazio Budista indica que a realidade não pode ser entendida como a soma das partes mas sim como um todo. Cada um de nós existe como função do mundo à nossa volta e de quem fomos no passado. O que fomos (e como fomos) há 5, 10, 15 minutos ou há 1, 2, 3 horas ou há anos atrás, combina-se com o mesmo processo de cada elemento à nossa volta para produzir o que somos a cada instante. Óbviamente isto não implica que não existimos mas sim que a nossa existência não é independente. O prícipio do vazio é central ao Budismo Mahayana (Budismo do Norte) e é fulcral para o Chan. Se sofremos constantemente à conta das pequenas insatisfações diàrias, ainda maior é o nosso sofrimento quando antevemos a possibilidade de não existirmos como entes independentes. O nosso Ego fabrica-se a si mesmo e resiste com toda a força a debater esta possibilidade. Paradoxalmente, só quando compreendemos e internalizamos esta verdade: que não temos naturêza própria e que o nosso conceito de "eu" é uma ilusão, é que começamos a vislumbrar a libertaçao.

A prática do Chan tem como fim libertar-nos do sofrimento e um dos primeiros passos nessa via é precisamente sermos capazes de aceitar e compreender estas três características da realidade.



Zen Portugal às 19:14 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 18.12.09

A prática formal da meditação vai tendo um efeito gradual na nossa mente. Mesmo que não se pratique mais nenhuma forma de meditação que a que aqui temos apresentamos, é certo que se observarão resultados, a mente acalma e começamos a desenvolver um sentido mais apurado de introspecção. O processo de ficar só a observar a mente e o mundo à nossa volta sem se tentar interferir num ou no outro é o que se chama em Chan "Iluminação Silenciosa" (shikantaza em Japonês e zhiguan da zuo em Mandarim).

 

Á medida que praticamos vamos observando os seguintes níveis na nossa meditação:

 

  1. ficamos alerta para com o que se passa à nossa volta e com a nossa mente - apercebemo-nos de ruídos quando meditamos, apercebemo-nos das pequenas comichões e desconfortos, da temperatura da sala em que estamos, da presença de quem está à nossa volta, do que se passa com o nosso corpo, com a nossa respiração, com os pensamentos que aparecem e desaparecem quase sem parar.
  2. acalmamos a confusão da mente - a hipérbole usada pelos mestres Chan é que o macaco cobre os olhos e os ouvidos, ou seja, neste estado perdemos o sentido ao que vemos e ouvimos quando meditamos, a nossa concentração é inteiramente dirigida ao nosso mundo interior, os objectos e eventos externos têm uma influência reduzida na nossa meditação
  3. voltamos constantemente ao método - os mestres usam o exemplo de um macaco (a mente) que está amarrado a um poste: não pode ir muito longe e volta sempre para junto do poste. De forma similar, nesta fase somos capazes de voltar a focar a mente na observação cada vez que ela se dispersa atrás de um pensamento ou distracção.
  4. concentração unificada - nesta fase não há envolvimento com objectos externos e mesmo os objectos externos perdem expressão. O macaco da nossa mente está calmo
  5. consciência da respiração ainda está presente - ainda temos a noção de sermos entes com identidade e natureza própria mas nesta fase paramos espontaneamente de contar a respiração
  6. unificação dos mundos externos e internos - o corpo e a mente, o mundo interior e o exterior ainda existem para nós mas já não os consideramos como estando separados um do outro, deixa de haver um "eu" separado da realidade envolvente.

 

Cada um destes níveis tem as suas dificuldades e gera as suas dúvidas e convém ter-se um sacerdote ou monge que nos guie através deste processo.



Zen Portugal às 21:49 | link do post | comentar | ver comentários (1)

O Budismo põe mais êmfase no ensinamento e conteúdo da mensagem do que no mensageiro ou no formato da comunicação. Assim, o Budismo considera que os ensinamentos contidos num texto devem ser avaliados em relação aos seus méritos próprios e não em relação a quem os apresenta, às suas origens ou mesmo ao autor.
O Budismo estabelece assim as "quatro confianças" (catuh pratirasana) para avaliar o valor de qualquer ensinamento:

  • confiança no ensinamento e não no seu autor
  • confiança no sentido ou conteúdo e não na carta (ou formato da mensagem)
  • confiança na verdade e não na convenção
  • confiança no conhecimento e não na informação

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Zen Portugal às 21:30 | link do post | comentar

Terça-feira, 08.12.09

Nos posts anteriores sobre conversão ao Budismo, ficou por endereçar uma questão fundamental: qual é o processo de conversão?

 

A "conversão" é um acto individual, no sentido lato, uma pessoa recita as tomada de refúgio nas Três Jóias, ou seja uma pessoa põe as mãos, faz uma vénia e recita:

  • Refugio-me no Buda
  • Refugio-me no Darma
  • Refugio-me na Sanga

Faz-se novamente uma vénia e o processo está concluído.

 

No sentido estrito, pode-se requerer uma pequena cerimónia de um monge ou sacerdote. A nossa Ordem dá refúgio a todos que o peçam, contacte-nos se estiver interessado em se refugiar e em explorar o Budismo formalmente.



Zen Portugal às 17:21 | link do post | comentar

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