Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

O Budismo ensina-nos que a realidade se caracteriza por três qualidades básicas:

  • Impermanência - esta característica ou qualidade é evidente: nada dura para sempre, sejam bens materiais ou espirituais, estados mentais, o mundo à nossa volta, nada é permanente. O que nós somos hoje há-de mudar, da mesma forma que mudámos desde que éramos pequenos e haveremos de continuar a mudar até morrer. Até a mais alta montanha se desgasta até nada restar dela. Uma grande ilusão a que nos prendemos é que há coisas que não mudam... retórica àparte, tudo muda e nada é permanente.
  • Sofrimento - a nossa naturêza é inescapável ao sofrimento, no nosso desespêro de tornar algo constante, geramos sofrimento. "Sofrimento" não deve ser entendido só como dôr física ou grande depressão ou desespêro mas também como insatisfação. Na realidade, se o termo não fosse tão restrito, "insatisfação" seria a maneira de descrever o sofrimento que normalmente mais nos atormenta. É a insatisfação de nunca termos nada "perfeito", de estarmos sempre com um pequeno desconforto qualquer, de não nos considerarmos à altura das nossas ilusões, na realidade, a nossa vida é quase uma sucessão ininterrupta de pequenas insatisfações entremeadas de maior sofrimento. De um ponto de vista Budista, esta insatisfação e sofrimento advêm da nossa tendência de nos apegarmos a ideias e conceitos incorrectos ou de tentarmos constantemente justificar o nosso Ego. Sofremos porque vemos um mundo à nossa volta que não segue o papel que lhe destinámos e sofremos porque não realizamos as duas outras características da existência: não aceitamos que tudo passa e nada é permanente e queremos com toda a força que algo tenha naturêza própria, queremos que o ditame de Descartes seja verdade: queremos existir só por ventura de pensarmos, mas temos sempre resquícios de dúvida e são estas minúsculas dúvidas que entram em conflicto com a nossa necessidade de certêza e criam sofrimento.
  • Vazio - no contexto do Budismo, o "vazio" não deve ser entendido como "vácuo", como ausência de ser, mas sim como ausência de naturêza própria independente. O que quero dizer com isto é que nada tem naturêza própria, que tudo depende do que lhe está à volta do que aconteceu anteriormente. o vazio Budista indica que a realidade não pode ser entendida como a soma das partes mas sim como um todo. Cada um de nós existe como função do mundo à nossa volta e de quem fomos no passado. O que fomos (e como fomos) há 5, 10, 15 minutos ou há 1, 2, 3 horas ou há anos atrás, combina-se com o mesmo processo de cada elemento à nossa volta para produzir o que somos a cada instante. Óbviamente isto não implica que não existimos mas sim que a nossa existência não é independente. O prícipio do vazio é central ao Budismo Mahayana (Budismo do Norte) e é fulcral para o Chan. Se sofremos constantemente à conta das pequenas insatisfações diàrias, ainda maior é o nosso sofrimento quando antevemos a possibilidade de não existirmos como entes independentes. O nosso Ego fabrica-se a si mesmo e resiste com toda a força a debater esta possibilidade. Paradoxalmente, só quando compreendemos e internalizamos esta verdade: que não temos naturêza própria e que o nosso conceito de "eu" é uma ilusão, é que começamos a vislumbrar a libertaçao.

A prática do Chan tem como fim libertar-nos do sofrimento e um dos primeiros passos nessa via é precisamente sermos capazes de aceitar e compreender estas três características da realidade.



publicado por Zen Portugal às 19:14 | link do post | comentar

1 comentário:
De Rumennig Teodoro a 24 de Janeiro de 2010 às 02:27
Um excelente post com uma boa qualificação da realidade. Boa colocação para com o Budismo Mahayana, um fator crucial, que mostra e exemplifica a diferença enre ambos!

Mito bem colocado a base de sofrimento e de impermanencia!

Um belo post!


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