Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Claro que este é um tópico que tem a tendência de se tornar contencioso e cujo debate parece não ter fim. mas o Buda contou uma história que ilustra as principais diferenças entre o Budismo e o Cristianismo, Judaísmo e Islão: imagine-se um soldado numa batalha medieval.  A meio da batalha uma flecha atinge-o na perna e o pobre soldado cai no chão contorcido com dores. Pensemos agora no que é mais importante para o soldado: extrair a flecha e começar a curar a ferida, ou continuar com a dor e flecha cravada na perna, enquanto ele debate a origem da flecha, tenta descobrir quem a fez, quem a disparou, o arco que flecha fez no ar, etc.? Claro que dada a agonia de ter sido atingido pela flecha o soldado estará muitíssimo mais interessado em a tirar e em se curar do que em se envolver em debates inúteis sobre a natureza da flecha e do seu infortúnio.
De forma similar, o Budismo está muito mais interessado em endereçar e eliminar o nosso sofrimento do quem debater a nossa condição. A existência de um Deus é um assunto periférico no Budismo, questões sobre a origem e o fim do Mundo são postas no âmbito das Ciências em vez do âmbito religioso e a moralidade é algo que cada um de nós desenvolve como humanos e não algo que é imposto por deuses ou pelos intérpretes do deuses.
Assim, há uma corrente de debate no Ocidente que diz que o Budismo não é uma religião porque não tem a existência de um Deus ou Deuses como fulcro da sua teologia. Se o Budismo é ou não uma religião é periférico à nossa prática: o que estamos interessados é em melhorar a nossa vida e o mundo à nossa volta, queremos tirar rapidamente a flecha que nos atormenta e sabemos que só nós é que o pudemos fazer, que num ente se vai materializar para nos extrair a flecha.
No fim, o que nos distingue das religiões Ocidentais é um ênfase muito maior na responsabilidade individual e no pragmatismo.



publicado por Zen Portugal às 17:38 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

O Budismo ensina-nos que a realidade se caracteriza por três qualidades básicas:

  • Impermanência - esta característica ou qualidade é evidente: nada dura para sempre, sejam bens materiais ou espirituais, estados mentais, o mundo à nossa volta, nada é permanente. O que nós somos hoje há-de mudar, da mesma forma que mudámos desde que éramos pequenos e haveremos de continuar a mudar até morrer. Até a mais alta montanha se desgasta até nada restar dela. Uma grande ilusão a que nos prendemos é que há coisas que não mudam... retórica àparte, tudo muda e nada é permanente.
  • Sofrimento - a nossa naturêza é inescapável ao sofrimento, no nosso desespêro de tornar algo constante, geramos sofrimento. "Sofrimento" não deve ser entendido só como dôr física ou grande depressão ou desespêro mas também como insatisfação. Na realidade, se o termo não fosse tão restrito, "insatisfação" seria a maneira de descrever o sofrimento que normalmente mais nos atormenta. É a insatisfação de nunca termos nada "perfeito", de estarmos sempre com um pequeno desconforto qualquer, de não nos considerarmos à altura das nossas ilusões, na realidade, a nossa vida é quase uma sucessão ininterrupta de pequenas insatisfações entremeadas de maior sofrimento. De um ponto de vista Budista, esta insatisfação e sofrimento advêm da nossa tendência de nos apegarmos a ideias e conceitos incorrectos ou de tentarmos constantemente justificar o nosso Ego. Sofremos porque vemos um mundo à nossa volta que não segue o papel que lhe destinámos e sofremos porque não realizamos as duas outras características da existência: não aceitamos que tudo passa e nada é permanente e queremos com toda a força que algo tenha naturêza própria, queremos que o ditame de Descartes seja verdade: queremos existir só por ventura de pensarmos, mas temos sempre resquícios de dúvida e são estas minúsculas dúvidas que entram em conflicto com a nossa necessidade de certêza e criam sofrimento.
  • Vazio - no contexto do Budismo, o "vazio" não deve ser entendido como "vácuo", como ausência de ser, mas sim como ausência de naturêza própria independente. O que quero dizer com isto é que nada tem naturêza própria, que tudo depende do que lhe está à volta do que aconteceu anteriormente. o vazio Budista indica que a realidade não pode ser entendida como a soma das partes mas sim como um todo. Cada um de nós existe como função do mundo à nossa volta e de quem fomos no passado. O que fomos (e como fomos) há 5, 10, 15 minutos ou há 1, 2, 3 horas ou há anos atrás, combina-se com o mesmo processo de cada elemento à nossa volta para produzir o que somos a cada instante. Óbviamente isto não implica que não existimos mas sim que a nossa existência não é independente. O prícipio do vazio é central ao Budismo Mahayana (Budismo do Norte) e é fulcral para o Chan. Se sofremos constantemente à conta das pequenas insatisfações diàrias, ainda maior é o nosso sofrimento quando antevemos a possibilidade de não existirmos como entes independentes. O nosso Ego fabrica-se a si mesmo e resiste com toda a força a debater esta possibilidade. Paradoxalmente, só quando compreendemos e internalizamos esta verdade: que não temos naturêza própria e que o nosso conceito de "eu" é uma ilusão, é que começamos a vislumbrar a libertaçao.

A prática do Chan tem como fim libertar-nos do sofrimento e um dos primeiros passos nessa via é precisamente sermos capazes de aceitar e compreender estas três características da realidade.



publicado por Zen Portugal às 19:14 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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